Filosofia

Comentários para auxiliar no aprendizado da Filosofia

17.9.09

MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL

MST URBANO OU MOVIMENTO DOS SEM-TETO

                Há no Brasil um movimento social que não aparece muito nos jornais e na televisão: o Movimento dos Sem-Teto, atuante principalmente nos grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Os sem-teto agem de modo organizado. Uma das formas de pressão que adotam é a ocupação de imóveis. As ações envolvem de cem a duzentas famílias, que se instalam no local escolhido e informam às autoridades que passarão a viver ali, mesmo em condições precárias, até que lhes seja propiciada uma opção de moradia.

                Quando a polícia, em conseqüência de uma ação judicial, força a desocupação do local, os sem-teto procuram outro imóvel e organizam nova ocupação. Os alvos mais freqüentes são imóveis velhos desocupados, em geral edifícios abandonados por proprietários que deixaram de pagar o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), forçando o poder público a desapropriá-los. Em alguns casos, sob a pressão dos sem-teto, os governos declaram esses edifícios de interesse social, possibilitando que se tornem moradia para quem não a tem.

                A maioria dos participantes do Movimento dos Sem-Teto são trabalhadores que não tem condições de pagar um aluguel, mínimo que seja, ou que não querem morar na periferia, pois não tem recursos para pagar aluguel e transporte até seus postos de trabalho. Há entre os sem-teto trabalhadores que ganham no máximo um salário mínimo, e muitos desempregados.

A REVOLTA DOS ESTUDANTES

                Na terceira semana de setembro de 2003, milhares de estudantes de 12 a 22 anos paralisaram por três dias a capital da Bahia, Salvador, manifestando-se contra o aumento das passagens de ônibus. Em ações relâmpago, eles invadiam as principais ruas e avenidas e bloqueavam o trânsito, sentando-se no chão para impedir a passagem dos veículos.

                A manifestação ocorreu sem nenhuma articulação de organizações estudantis; muito ao contrário, os estudantes negaram a possibilidade de liderança tanto da União Nacional dos Estudantes (UNE), quanto da União Baiana dos Estudantes Secundaristas (UBES), pois não queriam ser acusados de servir como instrumentos políticos dessas organizações, que, na expressão deles, possuem vinculações partidárias. As ações relâmpago eram definidas em miniassembleias e em cada ponto da cidade decidia-se quem podia passar ou não. A preocupação era não prejudicar as pessoas que necessitavam chegar ao local de trabalho, além de garantir o livre trânsito de mulheres grávidas, idosos e portadores de alguma deficiência.

                Em sua maioria, os participantes das manifestações eram alunos que viviam na periferia da cidade, o que significa que os gastos com transporte tinham um peso importante no orçamento familiar. Com o movimento, eles conseguiram que o prefeito e seus auxiliares sentassem para discutir o aumento e a implantação da meia passagem para os estudantes.

 

1.       Os dois movimentos focalizados são diferentes, mas tem pelo menos um ponto em comum: a pressão para que as ações governamentais sejam direcionadas em favor dos que mais necessitam de apoio no Brasil. O que você pensa sobre esse tipo de pressão? Ela pode ser eficaz na consecução de determinados objetivos?

2.       A propriedade de um imóvel abandonado pode ser usada como argumento para não permitir que pessoas sem moradia o ocupem? A ocupação é a melhor forma de forçar uma tomada de decisão por parte dos governantes?

3.       Você considera os movimentos dos estudantes por transporte mais barato importantes como experiência de participação na definição de políticas públicas para o setor? Você já participou de movimentos desse tipo? Em caso afirmativo, comente sua experiência.

 

TOMAZI, Dacio N. Sociologia para o ensino médio. São Paulo: Atual Editora, 2007. p. 164-165

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TRABALHO NO MUNDO DE HOJE

O TRABALHO FLEXIBILIZADO E MUNDIALIZADO

                O sociólogo brasileiro Octávio Ianni (1926-2004), no artigo “O mundo do trabalho”, publicado em 1994 no periódico São Paulo em perspectiva (Seade), afirma que todas as mudanças no mundo do trabalho são quantitativas e qualitativas, e afetam a estrutura social nas mais diferentes escalas. Entre essas mudanças, ele aponta o rompimento dos quadros sociais e mentais que estavam vinculados a uma base nacional. Ele quer dizer que hoje, com o trabalho flexível e volante no mundo todo, pessoas migram para outros países em busca de trabalho. E, assim, nos países a que chegam, geralmente vivem em situação difícil, desenvolvendo trabalhos insalubres e em condições precárias. Além das dificuldades de adaptação, com freqüência enfrentam problemas de preconceito racial, religioso e cultural.

                O fenômeno dos decasséguis, os brasileiros descendentes de japoneses que se deslocam para trabalhar no Japão por curtas ou longas temporadas, é a expressão bem visível desse processo. Trabalham mais de 12 horas por dia e são explorados ao máximo. Alguns, mais qualificados, conseguem bons empregos, mas a maioria não. A esta restam as opções de voltar ou de lá permanecer marginalizada.

EMPREGO: O PROBLEMA É SEU

                [...] todos os assalariados de uma empresa, não importa qual seja o seu nível hierárquico, não sabem nunca se serão mantidos ou não no emprego, porque não é a riqueza econômica da empresa que vai impedir que exista redução de efetivo. Vou dar o exemplo [...] da Peugeot e da Citroen, que conheço bem, na França. É uma empresa que está funcionando muito bem. Ela passa seu tempo a despedir as pessoas de maneira regular. Isso é perversão, mas a perversão está ligada à psicologização. O que quero dizer com isso? Poderão permanecer na empresa apenas aqueles que são considerados de excelente performance. [...] Isso é psicologização, na medida em que, se alguém não consegue conservar o seu trabalho, fala-se tranquilamente: “mas é sua culpa, você não soube se adaptar, você não soube fazer esforços necessários, você não teve uma alma de vencedor, você não é um herói.” [...] quer dizer: “você é culpado e não a organização da empresa ou da sociedade. A culpa é só sua.” Isso culpabiliza as pessoas de modo quase total, pessoas que, além disso, ficam submetidas a um estresse profissional extremamente forte. Então as empresas exigem daqueles que permanecem um devotamento, lealdade e fidelidade, mas ela não dá nada em troca. Ela vai dizer simplesmente: “você tem a chance de continuar, mas talvez você também não permaneça.”

ENRIQUEZ, Eugéne. Perda de trabalho, perda de identidade. In: Nabuco, Maria Regina, Carvalho Neto, Antonio. Relações de trabalho contemporâneas. Belo Horizonte: IRT, 1999. p. 77

1.       Qual é a principal relação entre os dois textos?

2.       O emprego é uma questão pessoal, social ou ambas? Desenvolva.

TOMAZI, Nelson D. Sociologia parra o ensino médio. São Paulo: Atual Editora, 2007. p. 53-54

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A SOLUÇÃO KANTIANA NO SÉCULO XVIII

A resposta aos problemas do inatismo e do empirismo oferecida pelo filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant, é conhecida com o nome de “revolução copernicana” em filosofia. Por quê? Qual a relação entre o que propõe Kant e o que fizera Copérnico, quase dois séculos antes do kantismo?

O que diz Kant?

Inatistas e empiristas, isto é, todos os filósofos, parecem ser como astrônomos geocêntricos, buscando um centro que não é verdadeiro. Qual o engano dos filósofos? Considerar que o conhecimento se inicia tendo como ponto de partida a realidade: no caso dos inatistas, como Descartes, a realidade inicial é o interior, o espírito, a alma humana, que Descartes chama de “coisa pensante” ou “substância pensante”; no caso dos empiristas, a realidade inicial é exterior, o mundo ou a natureza.

Ora, diz Kant, “o ponto de partida da filosofia não pode ser a realidade (seja interna, seja externa), e sim o estudo da própria faculdade de conhecer ou o estudo da razão”. De fato, os filósofos anteriores, em lugar de, antes de tudo, estudar o que é a própria razão e indagar o que ela pode e o que ela não pode conhecer, o que é a experiência e o que ela pode ou não pode conhecer; em vez, enfim, de procurar saber o que é conhecer, o que é pensar e o que é a verdade, preferiram começar dizendo o que é a realidade (a natureza e o espírito humano), afirmando que ela é racional e que, por isso, pode ser inteiramente conhecida pelas idéias da razão. Colocaram a realidade ou os objetos do conhecimento no centro e fizeram a razão, ou o sujeito do conhecimento, girar em torno dela.

Façamos, pois, uma revolução copernicana em filosofia, escreve Kant em sua obra Critica da razão pura: até agora, julgava-se “que nosso conhecimento devia ser regulado pelos objetos”, mas agora devemos “admitir que os objetos devem regular-se pelo nosso conhecimento”.

Copérnico, escreve Kant, “não completou sua explicação, ela foi completada e corrigida por Kepler e Newton, que mostraram que o que ele julgava ser uma boa hipótese era, realmente, a verdadeira e necessária explicação astronômica”. À maneira copernicana, prossegue Kant, “demonstremos também de maneira universal e necessária, que os objetos se adaptam ao conhecimento e não o conhecimento aos objetos”. Ou seja, comecemos colocando no centro a própria razão.

Não é a razão a Luz Natural? Não é ela o sol que ilumina todas as coisas e em torno do qual tudo gira? Comecemos, portanto, pela Luz Natural no centro do conhecimento. Comecemos, então, pela razão, porque, por meio de seu estudo, compreenderemos o que são o sujeito do conhecimento e o objeto do conhecimento. Comecemos pela crítica da razão pura.

Por que crítica? Com essa palavra, Kant quer dizer que não serão examinados os conhecimentos que a razão alcança, e sim as condições nas quais o conhecimento racional é possível. Por que pura? Porque se trata do exame da razão antes e sem os dados oferecidos pela experiência.

Escreve ele que a crítica não é a crítica de livros e de sistemas filosóficos, e sim da própria faculdade da razão em geral, considerada em todos os conhecimentos que pode alcançar sem se valer da experiência. Ou seja, é verdade que todos os nossos conhecimentos começam com a experiência, mas não é verdade, que todos eles provenham dela.

Como o estudo se referem as condições necessárias e universais de todo o conhecimento possível antes da experiência e sem os dados da experiência, tal estudo não é empírico. Ou seja, é a priori, e não a posteriori. Kant diz que ele é transcendental, explicando que chama de transcendental “todo conhecimento que, em geral, se ocupa menos dos objetos e mais do nosso modo de conhecer, na medida em que este deve ser a priori“.

CHAUI, Marilena. Filosofia série novo ensino médio. São Paulo: Editora Ática, 2008. p. 90-91

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